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A Fábrica de lembranças

  • Foto do escritor: Julia Bartsch
    Julia Bartsch
  • 5 de mar. de 2023
  • 3 min de leitura

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Escrevo esse texto pensando numa experiência de viagem recente. Por onde passo, gosto de trazer algo que represente, verdadeiramente, onde estive. Como que possuir um pedaço daquele lugar dentro de casa. Penso que um dos souvenirs mais autênticos que tenho é o de um avestruz feito com arame e tampinhas da cerveja Primus, uma marca de cerveja que existe apenas na República Democrática do Congo, país onde adquiri o pequeno objeto. Por certo, também tenho aqui uma girafa em madeira que pode ser encontrada em inúmeras lojas de souvenir em diferentes países do continente africano. Enfim, a viagem que inspira essa escrita aconteceu entre o fim de janeiro e o começo de fevereiro de 2023, pela Tailândia (com uma rápida e inesquecível passagem pelo Camboja). Embora fosse possível viver as duas semanas por lá com uma mochila de mão, levei uma mala a despachar, na verdadeira crença de que ela voltaria abarrotada de coisinhas locais. É aqui que começa a compreensão de que não seria bem assim. Meu primeiro objeto de desejo foi a reprodução de uma figura encontrada no Grand Palace em Bangkok, um dos Demon Guardians.

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Nada como levar para casa a figura de uma personagem que compõe uma das histórias mais emblemáticas e seculares da literatura tailandesa (Ramakien – glória de Rama, por sua vez, trazido do épico indiano Ramayana), e pintada nas paredes de um dos edifícios dentro do complexo do palácio, não é mesmo? Esses guardiões, em número de seis, protegem a estátua do Buda de Esmeralda, considerado o protetor do reino da Tailândia. Entretanto, a missão tornou-se fastidiosa. As lojas de souvenirs estavam abarrotadas de imagens de Buda em todas as posições conhecidas. Sim, cada posição do corpo ou das mãos de Buda tem um significado diferente, algo que aprendi por lá. Também, elefantes, panos, colares, uma coleção genérica do que poderia representar o país, 95% budista, como qualquer um dos outros países, igualmente budistas e habitados por elefantes. Mas nada de estatuetas de nosso amigo guardião. Tendo a visita ao palácio sido feita num dos primeiros dias da viagem, as idas às lojas e mercados locais tinham como missão encontrar uma réplica desta figura. Em vão. Quase que a contragosto, acabei encontrando algo pequeno, monocromático, em ferro, talvez e que, de longe, retratava o colorido e detalhado da estátua original. A pequena peça está aqui, ao lado de um pequeno Buda que ganhei de minha mãe em 2008, adquirido aqui no Brasil mesmo, um Ganesh em resina, esse sim, bem colorido, que comprei na Índia e uma estátua de Iemanjá, que ganhei de um amigo, em seu manto azul e seu rosto negro. Pensar no Ganesh me fez lembrar que a viagem à India, ao contrário, me levou a comprar uma pequena mala para poder carregar o que havia comprado ali, país abarrotado, ao menos 12 anos atrás, de souvenirs, panos e roupas autenticamente indianos. O que estava acontecendo na Tailandia, então?

A fabricação em massa de lembrancinhas para turistas, infelizmente, vem desfeito a produção de artesanato local, de objetos nascidos e feitos ali, dentro de sua história, sua cultura e seu folclore. Há tempo, sabemos, até mesmo as réplicas da torre Eiffel, em Paris, são fabricadas, muito provavelmente, nos mesmos lugares onde se fabricam réplicas do Big Ben, de Londres, do Empire State Building, de Nova Iorque, dos milhares de Budas pela Ásia e importados por tantos outros países pelo mundo. O negócio do turismo, embora tenha o poder de convidar a imersão em uma outra cultura, é também o que a destrói. Adquirir algo legitima e autenticamente local, ao que parece, vem sendo cada vez mais difícil. Fica o desafio, entretanto. Mas é preciso querer e saber que pode não ser simples.

Trazendo a experiência para a busca de nossas lembranças pessoais, peguei-me refletindo sobre como nem sempre que é lembrado é, de fato, o que ocorreu. Ou ainda, outras lembranças se sobreporiam a outras lembranças, estas mais significativas e ao mesmo tempo, embora registradas, não são acessíveis pela memória do fato em si, mas transformado ou recalcado. Freud as chamou de ‘lembranças encobridoras’ (Lembranças Encobridoras, de 1899). Será mais fácil ou menos incômodo lembrar/fabricar lembranças do elefante do que do guardião? O que nos leva a pensar se, como já indagou Freud, as lembranças são mesmo o que são ou estão lá apenas para facilitar nosso trabalho psíquico. Buscar o guardião pode ser uma missão e tanto.

 
 
 

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