Sobre Almodóvar e “O quarto ao lado”
- Julia Bartsch
- 30 de out. de 2024
- 5 min de leitura

(Contém Spoilers sutis)
Conheci Almodóvar por uma casualidade de adolescentes. Uma amiga feita no colegial (o ensino médio, meus xóvens) era apaixonada por um colega do Karatê dela chamado Antônio, descendente de espanhóis. Paixão dessas bem secretas. Volta e meia, ela e eu combinávamos um cinema. O detalhe é que, na época, nenhuma de nós tinha telefone em casa, tempos de TELESP, em que um telefone era um bem patrimonial assim como ter um carro. Desta forma, visto que já não estudávamos juntas, combinávamos nossos cinemas via carta. O Correio, minha gente, era um orgulho: dentro de São Paulo, uma carta levava dois dias, com sorte um, para chegar. O divertido era que não escrevíamos só para combinarmos o cinema. Efetivamente, contávamos de nossas vidas, nossas paixonites e nossas aborrecencias. E foi assim que ela tinha visto no jornal (porque era assim que sabíamos do que estava em cartaz) que havia um filme espanhol qualquer com um ator chamado Antônio. Troca de cartas feitas e combinadas, lá estávamos nós no cine Astor, dentro do Conjunto Nacional. Sim, xóvens! Ali, onde um dia foi a Livraria Cultura, havia um cinema enorme!
Aquele filme alucinado, cheio de mulheres alucinadas, carregado de cores alucinadas era um filme de um “tal” Pedro Almodóvar e o tal Antônio do filme era nada mais nada menos do que o Banderas, em “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Ele havia me conquistado. Pouco tempo depois, naqueles anos 90 já com minha cinefilia aflorada, o MIS fez um festival de filmes do diretor, além de outro espanhol, Bigas Luna (esse era um outro patamar, fica para outra hora) e pude colocar em dia meu novo encantamento pela filmografia almodovariana. Fui, ao longo do tempo, mantendo minha fidelidade até os dias de hoje, sem perder um filme de Almodóvar, até chegar nesse que parece ser um conjunto profundo de sua obra.
A relação entre mulheres, pantones de cores intensas saltando da tela, o questionamento da ética cristã, viver loucamente, morrer em paz. Tudo o que já vimos em tantos outros filmes de Pedro Almodóvar parece ter encontrado uma espécie de ápice, de grand finale, um apogeu de toda uma história cinematográfica que culmina no reconhecimento de que há um fim. Isso não significa que essa seria a última obra desse diretor, mas traz ares de um processo que já víamos em “Dor e Glória”, que abordava o envelhecimento. “O quarto ao lado” é, pelo que pude me informar, em parte inspirado pela premissa do livro “O que você está enfrentando”, no qual uma mulher, enquanto escuta casos difíceis, vive a proximidade da perda de uma amiga. No filme, as mulheres, magistralmente interpretadas por duas de minhas atrizes favoritas, Julianne Moore e Tilda Swinton, são velhas amigas que há muito não se viam. Uma é Ingrid, escritora de ficção, resistente à ideia do fim da vida e outra, Martha, jornalista de guerra, num avançado estágio de câncer. Almodóvar, que até então nunca havia dirigido um longa em inglês (fez recentes incursões em curtas), parece não ter escolhido ao acaso uma narrativa que acontece entre a gigante Nova Iorque e o local quase idílico distante cerca de duas horas desta cidade. É dali que saem as conversas que se insinuavam preocupadas com os efeitos das mudanças climáticas, num país que tinha presença garantida nas guerras cobertas por nossa jornalista, onde o afeto de um abraço é reprimido por temor a processos judiciais e a religião dita preceitos éticos que pretendem reger a vida (ou a morte) de seus cidadãos.
O reencontro entre elas é também o reencontro com elas, na medida em que a convivência estabelecida a partir de um pacto faz emergir confissões, medos e arrependimentos. É quando nos damos conta do reencontro de Almodóvar com seus próprios filmes.
Ingrid trata a vida como trata seus bem-sucedidos romances: um mundo que não deveria terminar. Nem mesmo as mudanças climáticas, um prenúncio claro do término de todo um mundo, lhe é um assunto suportável. Mas é ela quem aceita acompanhar a amiga Martha em seus últimos dias. E Martha, que tem as guerras como pano de fundo de sua vida, incluindo os efeitos de um trauma de guerra sobre o pai de sua única filha, toma o câncer como mais um combate.
Por não ter conseguido explicar a ausência do pai de sua filha, Martha tem com ela um relacionamento distante. Já vimos a premissa do relacionamento entre mãe e filha, mãe e filho, pai e filha em tantas outras obras de Almodóvar. Só para citar umas poucas: O mais recente ‘Mães Paralelas’, ‘Tudo sobre minha mãe’, ‘Julieta’, ‘A pele que habito’, ‘Volver’, ‘De salto alto’... A redenção entre mãe e filha, ainda que póstuma e possível apenas graças às confissões anteriores entre as amigas, acontece nos instantes finais, já nos créditos, que se misturam à neve que cai e uma tela com efeitos de cores que se alternam, como que sintetizando todas as cores de Almodóvar. As recordações de Martha envolvem seus trabalhos em países em Guerra. No Iraque, pouco antes de partir, entrevista dois religiosos. Descobre-se ali que o fotógrafo que a acompanha lhe conta já havia tido uma relação com um deles e que os dois religiosos resistiam a partir por estarem, eles próprios, em uma relação amorosa e sexual que lhes bastava num lugar de tanto perigo. Sexo e religião aparecem em ‘Má educação’ e o amor homossexual também aparece em ‘A lei do desejo’ e o já citado ‘Dor e Glória’’. Há muito de autobiográfico nessas histórias, já confessado pelo diretor. A religião, mesclada na figura de poder, em ‘O quarto ao lado’ representada por um policial inquisidor, também é vista em ‘Maus hábitos’ e, novamente’ em ‘Má educação’.
Qual traição? Ingrid e Martha tinham em Damian um amigo em comum, que já havia sido uma espécie de ‘p_u amigo’, interpretado por John Torturro, visto em uns bons filmes como ‘Faça a coisa certa’ de Spyke Lee, o divertido cult ‘O grande Lebowski’ e outros tantos. Sexo era, para ambas, o melhor da vida. Martha admite o que ela chama de promiscuidade como efeito do trabalho em meio a guerras, enquanto Ingrid mantinha sua vida sexual discreta, assim como seguia mantendo encontros com Damian, já como bons amigos, sem que Martha o soubesse. Não há uma disputa de amor ou rancores, como vemos com tintas carregadas em ‘Abraços partidos’, ‘Que fiz eu para merecer isso’ ou ‘A flor do meu segredo’. É como se não fosse mais necessário estabelecer uma tensão. A vida, ou o fim dela, segue, simplesmente.
Resta-nos resolver esse encerramento. Há uma belíssima cena em vemos Martha adormecida, deitada de lado em sua cama virada para nós, que observamos a tela, no quarto da casa escolhida por ela para viver seus últimos dias. Ingrid vê a porta aberta (essa porta nos dirá muitas coisas) e silenciosamente deita-se ao seu lado. Martha, sem que Ingrid o veja, abre seus olhos e se encerra com um singelo sorriso. Ah, que lindo é o cinema! Enquanto entendemos a conexão silenciosa entre as duas protagonistas, entendemos que há um fazer as pazes com muitas histórias. Não há sexo, traição e nem segredo ali. Diferente do afeto silencioso de ‘Fale com ela’, que coloca em xeque a moralidade do encontro de um corpo com outro em coma que não pode falar, ou no encontro sequestrado de ‘Ata-me’, ali, embora uma não possa ver a reação da outra, elas têm a certeza e a tranquilidade do lugar em que estão.
O pacto, aqui já estabelecido, permite que o roteiro antes determinado por uma porta fechada e a presença de uma amiga no quarto ao lado antes de morrer possa ser diferente. E ainda assim, tudo acontece.































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